Hoje eu evito escrever sobre política. Estou cansado de construir conceitos e, depois de tê-los todos formulados, descobrir que já não se aplicam mais. É por isso que não leio livros de auto-ajuda. Por isso odeio aqueles video blogs em que um fulano mistura narcisismo com um monte de porcarias que não “fazem o menor sentido” e arrumam um jeito brilhante de se achar muito inteligentes. O Felipe Neto é uma das poucas coisas hoje em dia que conseguem me irritar depois de uma boa manhã de surf, quando sento na frente da TV com uma travessa de comida japonesa. Caras como ele me fazem pensar em não escrever mais uma linha sequer. Nada pessoal, camarada, mas certas emoções são difíceis de serem controladas e, honestamente, acho você um babaca. A única coisa que realmente me impressiona nesse tipo de gente é a capacidade de transformar tanta babaquice em notoriedade, fama e até dinheiro. Não sei se isso é uma qualidade em si. Talvez, seja exatamente reflexo da falta de qualidade da audiência.
Nunca fui grande fã dos frankfurtianos. As críticas de Theodor Adorno a respeito do jazz, lidas mais de um século depois, se tornaram algo quase cômico. Penso sempre, não sem um tom de perversa comiseração, no conceito de aura de Walter Benjamin em tempos de YouTube e LastFM, a potencialização crescente da reprodutibilidade técnica. Mas se, por um lado, a história dos movimentos culturais e da sociedade informacional atropelou esses caras, a internet tem disponibilizado tanto lixo inútil que é impossível não dar o braço a torcer pelo menos em um sentido: a democratização dos meios de produção e distribuição cultural viabilizou tanta porcaria que, às vezes, cabe se questionar sobre o que é remédio e o que é veneno nessa coisa toda. É o preço que se paga pela liberdade criativa, ter os olhos e ouvidos constantemente vulneráveis a essa grande avalanche de merda midiatizada.
Outro dia, recebo um link para um vídeo de um viadinho da língua presa fazendo uma surpreendente dissertação sobre beijo na boca ou “French Kiss”, título sugestivo desta “poesia irreverente” assinada (sim, assinada) por um tal de Gabriel Colombo. Ainda me recordo de um tempo distante em que indicávamos aos amigos coisas de que gostávamos e, sobretudo, coisas que acreditávamos que o outro iria tirar algum proveito. Aproveito para fazer um apelo aos integrantes de minhas redes sociais: já têm chegado lixo suficiente ao meu conhecimento sem a ajuda dos senhores, não se incomodem em dividir comigo poesias de gente como esse Gabriel Colombo, canções da Edinéia Macedo (a garota da chuva), Mike de Mosqueiro e similares. Não consigo descobrir os atrativos diante do fracasso, ao contrário, sou capaz de diferenciar muito bem o cômico do que é simplesmente ridículo.
É claro que nem tudo é porcaria na rede. Acho até que tem mais coisas boas que ruins, ainda que as ruins comumente alcancem mais acessos. Eu me recordo bem da minha infância, um tempo em que coisas do tipo É o tchan e Raça Negra ocupavam a maior parte da programação das rádios e TV. Esse paradoxo entre qualidade e execução não é nada recente. Discutir sobre isso também não é nada original. A diferença é que, no início da década de 1990, você não precisava clicar em um link ou acessar um site. O lixo te perseguia via delivery aonde quer que você fosse. Na praia, nos barzinhos, no som do vizinho do lado que nunca tinha ouvido falar em fone de ouvido e resolvia torturar toda a vizinhança com o suas preferências de gosto nada apurado. Lembro de um tempo em que não existia mp3 ou programas de compartilhamento de arquivos peer-to-peer (p2p). A única maneira de sobreviver ao tédio das rádios FM e dos programas de auditório de domingo à tarde era gravar centenas de fitinhas cassete com os caras mais estranhos da escola. Metaleiros com camisas pretas do Iron Maiden, punks com o cabelo cor-de-rosa, eram a o mercado negro da música underground. Alguns chegavam a ter entre 300 e 400 fitas. Tratavam-se muitas vezes de um verdadeiro arsenal que exibíamos com orgulho no fundo dos guarda-roupas decorados com fotos de bandas e capas de discos ou guardados em caixas de sapato. Cada raridade era preservada com tamanho esmero que, muitas vezes, só os amigos mais próximos tinham acesso. Triste era ficar de castigo todas as vezes que um cassete estragado sujava o cabeçote do aparelho de som de casa. Acho que a minha geração foi a última a partilhar o ritual de catar alguns cotonetes e um vidro de álcool para fazer uma limpeza no aparelho de som. Alguém por aí ainda sabe o que é um cabeçote??? O tempo passa e acho que hoje as coisas mudam muito mais rápido que antes. Não tenho qualquer espécie de saudosismo em relação àquele tempo. Não sinto saudades das fitinhas cassete e nem das gravações de péssima qualidade que um amigo fazia dos clipes que passavam na MTV (no tempo em que na MTV ainda passava música). O mundo hoje é melhor. Quem me emprestaria fitas do Robert Johnson ou do Stills, Nash and Young? Provavelmente, se não fosse a internet, eu ainda estaria pensando que o Green Day tinha inventado o punk rock.
É estranho quando agente começa a perceber que está envelhecendo. Uma vez que vivemos em um cenário de vertiginosas mudanças e inovações tecnológicas relâmpago, acho lógico dizer que as pessoas envelhecem mais cedo tal qual as tecnologias se tornam obsoletas em lapsos de tempo cada vez mais curtos. Tenho as vezes a impressão de ter vivido 50 anos em 26. Demorei mais de duas décadas para descobrir que, apesar de viver cercado de seres humanos admiráveis, meus verdadeiros ídolos sempre estiveram ao meu lado, vivendo na minha casa, no quarto ao lado. A vida pode ser mais simples sem se tornar simplória e o que mobiliza as massas muitas vezes pode ser simplesmente uma boa produção de marketing ou reflexo da nossa natureza mais mesquinha. Aquele mecanismo de autodefesa que faz com que um miserável, alijado cultural e feio se torne um hit na internet. Nós rimos deles porque acreditamos ser melhores do que eles. Isso ainda é um eco das piadas que fazíamos com os nerds e os desajustados sociais no ensino médio. Hoje eles dão entrevistas no Faustão. Quando foi que o Mike de Mosqueiro se tornou exemplo de superação? O que foi que ele superou? As pessoas continuam morrendo de fome, sede e falta de educação. Seis meses depois ninguém se lembrará mais dele. Ele volta para a mesma vida miserável na medida que surgem mais dezenas de bobos da corte e a mídia tradicional tenta conter a sua doença terminal, “pegando carona” na popularidade dessas figuras sem nome. A TV e a rádio respiram em balões de oxigênio. Só eles ainda não perceberam o câncer que corrói seus alicerces. Então eles emulam mídias mais bem-sucedidas. Chamam de cura o que eu só consigo ver como sobrevida. E é por isso que eu não discuto mais política. Sou cético em relação às “grandes verdades”. Não tenho a menor paciência para um merdinha que senta em frente a uma webcam e fala como se, com pouco mais de 20 anos, ele já soubesse tudo que tem que saber. Talvez eu mesmo, e esse blog por extensão, não seja tão diferente deles. Afinal, escrevo como se o que eu penso fizesse uma grande diferença para os outros. Isso me faz pensar em poupar as pessoas do meu mal humor, do meu ceticismo. Passo tempos sem escrever nada, sem a menor inspiração para bancar o Arnaldo Jabour e brincar de cronista. Mas como isso aqui ainda é uma das minhas melhores terapias, sempre volto ao mesmo lugar. Vou continuar escrevendo, ainda que demore meses entre um post e outro, ainda que ninguém se interesse em ler. Vou continuar escrevendo nem que seja para daqui a muitos meses reler esse texto e pensar sem amargura ou vaidade: “Meu Deus, sou um grande idiota…”.
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