Ele está quase sempre muito mais disposto a se defender. Passou a tarde toda ensaiando um milhão de frases feitas. O caminho certo para mostrar alguém que não é. O alterego, a casca, o avatar. A sua força é construída sobre um perfil atraente no Facebook e algumas dúzias de corações lascerados. A socialização do fracasso pessoal, a personificação da perda, o caos funcional das suas relações interpessoais. Dá para ser melhor…e o photoshop ajuda. Resta o consolo de uma vida virtual.
Eles estão eufóricos, desesperados e passionais. É certo que toda euforia extrema abriga uma certa frustração. A frustração de estar sempre sozinho e, não importa quantas pessoas estejam ao redor, não importa quanto tempo passe, a sensação é de que esse caminho não leva a lugar nenhum. Somos o cachorro perseguindo o próprio rabo. Perseguimos em tantas bocas aquela mesma sensação do primeiro beijo. Procuramos em diversos corpos o alento e o afago daquela única pessoa que amamos de verdade em toda nossa vida. Ela não volta mais. Está perdida em qualquer lugar no passado e é preciso, só de vez em quando, aceitar que, nas suas lembranças, ela é muito melhor do que de fato foi. Mas está tudo bem. Nada disso foi feito para durar muito mais que o gelo do seu whisky, ou a cinza do seu cigarro. O relacionamento moderno é um natimorto. É como a tecnologia das máquinas que usamos: já nasce ultrapassado, vencido, oldfashioned. Na velocidade, você não distinguiu os rostos, ou os nomes. A memória ram armazena tudo tão melhor em números, então elas todas viraram pontos de uma escala cartesiana. A primeira, a segunda, a décima oitava e o colapso, o porre, o botão de reset do seu próprio organismo cansado e sedento, em meio a essa mostruosa abstinência de verdades.
Hoje acordou vazio, como uma garrafa velha e descartável. Existem aqueles que procuram a coisa errada, aqueles que procuram nos lugares errados e aqueles que procuram do jeito errado. Também existem aqueles que não procuram mais, mas esses são carta fora do baralho, são meros peões. Ele refaz as contas, contabiliza os danos. Tudo é muito matemático, plenamente racional. Trata-se de derrubar o máximo de pedras até ser derrubado. Daí surge a falsa sensação de que algum dia alguém saiu ganhando. A saciedade parcial e mesquinha de uma balada de sábado à noite ou a ressaca moral dos perdedores nas manhãs de domingo. Entre a conduta característica dos grandes jogadores e a vaidade dos amores relâmpago, sentimentos instatâneos e pouco substanciais. Tudo bem que ninguém mais se importe. Sempre se tratou de aplacar a fome de egos. Os telefones para os quais ele não vai ligar, os nomes que ninguém sequer fez questão de querer saber, os códigos de barra, as notas fiscais…o consumo e o preço. É caro. Manda pendurar. De qualquer forma, quem é que vai cobrar alguma coisa?
A essência é fugaz. A essência é o silencio que grita dentro do seu coração, mas do lado de fora ninguém ouve. Ninguém percebe que estamos mortos e, mais que isso, ainda estamos tentando matar uns aos outros, com ferocidade e paixão. É como se nenhuma inocência pudesse ser tolerada. A inocência se torna uma fraqueza ao mesmo tempo em que a pureza se torna qualidade mítica, mitológica. Eu vou vingar a inocência perdida, todas as vezes que você me magoou. Vou me levantar do meu túmulo e para te arrastar junto comigo para o inferno, aquele lugar frio e vazio onde os sentimentos não nos podem alcançar e em que não se brota sequer uma flor. Ele se sente vazio também. O álcool preenche, suaviza o cigarro, fode o rim, o fígado e te mata por dentro, aos poucos, sem pressa. É vida ou morte…mas a gana de viver ainda vai te destruir. É vida ou morte…é morte.
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