As mulheres e a doutrina

5 05 2011

Adão escolheu a costela. Talvez tenha sido egoísta demais para abrir mão de uma parte mais funcional, um pé, um braço, quem sabe? O fato é que ainda pagamos caro a conta de toda uma história em que a sociedade patriarcal e machista relegou à mulher o segundo plano, o resto, a sobra, a costela. Elas cresceram e hoje são muito mais do que mães, donas de casa e esposas recatadas. Os anos 60 vieram e com eles a catarse. As mulheres descobriram sua sexualidade, descobriram a política, novas formas de comportamento e expressão. Queimaram muito mais que uma dúzia de sutiãs e fizeram uma enorme fogueira, tão grande quanto aquela em que os cristãos queimavam suas bruxas. Atiraram nossas certezas, uma a uma, sem piedade. Nos deixaram feito bezerros desmamados, no momento em que decidiram que não queriam desempenhar o papel de nossas mães. Que não queriam ficar nos bastidores para arrumar a bagunça que criamos com nosso método unilateral e simplista de resolver nossas pendências. Ficamos órfãos. Bem para além do pecado original, serpentes e maçãs, elas nos deixaram sozinhos com nossa insuficiência de informações para entendê-las e falta de habilidade para acompanhá-las.

Não, amigo, você não fez nada de errado. Os pratos estão limpos e não tem nenhuma toalha molhada em cima da cama. Até, pelo contrário, botou para funcionar aquela lavadora que vive dando defeito e trocou o oléo e os filtros do carro. Não que ela vá notar isso, é claro. O carro para mulher, via de regra, é um ser autosuficiente e com um nível supreendente de automação e independência em seus processos mais básicos. Ele é capaz de se limpar e se abastecer sozinho, entre outras coisas. Nem tente me reponder então por que ela resolveu subir nos saltos, arremessar o seu travesseiro direto no sofá da sala e gritar a todos os pulmões que você não faz a menor questão de colaborar ou de tentar entendê-la. Ela só teve um dia difícil. Minha sugestão, de quem passou algumas vezes por isso, não discuta e nem se justifique. Procure um bom jogo de futebol na TV, ponha aquele samba-canção mais velho e surrado (aquele mesmo que ela já tentou jogar fora um milhão de vezes mas você vive dizendo que tem valor sentimental) e espere até que ela canse de espernear, deite no sofá ao seu lado, mude de canal para o Sex and The City e tente te convencer pela enésima vez a se desfazer da sua peça de roupa mais íntima e companheira de todos os tempos. Nunca, sob nenhuma condição, tente entender ou contra-argumentar. Esforço inútil cansa a alma e cercea a paciência.

A respeito de carros, existe um paralelo evidente entre carros e mulheres. Sua mulher vai ser sempre igual aquele seu primeiro carro. Sabe aquele gol 1997, branco cor de banheira, que você comprou um dia achando que era o carro da sua vida? No início ele te dá muitas alegrias e poucas dores de cabeça, mas com o tempo a equação pode se inverter. Era aquele carro que você levava para a revisão, trocava tudo, morria numa nota para deixar ele alinhado e pronto para a guerra. Mas, no fundo do seu coração, aquele lugar tão íntimo que só a conciência mais apurada pode alcançar, você sabia que lá na frente ele voltaria a te trazer problemas. O carro que você acorda todo dia e senta atrás do volante pensando em trocá-lo por um modelo mais moderno, espaçoso, potente e confortável, mais adequado a sua posição atual. Mas quando, finalmente, você se desfaz dele, toda vez que passar por um modelo similar, não se engane, a nostalgia vai bater. Você vai lembrar dos momentos que passaram juntos, das viagens inesquecíveis, das aventuras. Muitas vezes, você vai se apanhar pensando que aquele golzinho sim era demais. IPVA barato, peças de reposição acessíveis e uma disposição inabalável para te levar a qualquer lugar que quisesse ir. Saudade – é claro – dá e passa.

Minhas amigas feministas vão querer me matar depois de uma comparação dessas. Onde já se viu comparar uma mulher com um objeto, quer seja um carro, uma televisão ou uma garrafa de Blue Label? Não quero dizer que você, meu caro amigo, vai passar a vida inteira trocando de mulher até se sentir velho demais para sentir tesão em dirigir. Para isso, como para tudo na vida, existe uma solução (embora nem sempre simples). Encontre um clássico e se apaixone por ele. Aquele Chevy 1970, que  você equipa e guarda na garagem, com uma lona por cima para proteger das intempéries. Aquele Ford Gran Torino 1972 que você encera no fim de semana, senta no volante e liga o motor só para ouvir o ronco robusto e perfeito. Podem se passar 50 anos e isso ainda vai te arrancar um sorriso do canto da boca. O carro que se tem satisfação em exibir para os amigos e apontar cuidadosamente cada peça original de fábrica. Se quiserem saber, eu ainda estou à procura do meu velho Camaro. Enfim, eu não entendo muito de carros e nenhum de nós entende o suficiente das mulheres, mas fica difícil imaginar a vida completa sem qualquer um dos dois.

Uma amiga me pediu para escrever sobre o porquê de eu achar as mulheres seres indecifráveis. Acho que falhei nessa tarefa, falando sobre adão e eva e sobre carros. Talvez ela não goste de ler isso. Mas o que esperar de mim, homem, limitado e estúpido demais para compreender toda a complexidade da galáxia de signos que fazem das mulheres esse complexo e maravilhoso universo. Darwin já evidenciava que, a medida que a transformação se processava nos seres humanos, seu organismo se tornava mais complexo para abarcar todas as suas funcionalidades e possibilidades de um novo padrão evolutivo. Nós somos meros rascunhos, rabiscos simplórios. Nascemos das mulheres, passamos a vida inteira convivendo com elas de todas as formas, e – mesmo assim – não somos capazes de compreender as nuances de sua natureza. Por que elas são capazes de amar dessa forma? Se doar tão prontamente e com tanta doçura ao mesmo tempo que nos fazem escravos dos seus caprichos, da sua aparente e ilusória fragilidade. São como as flores que se fecham para se proteger do frio e da umidade da noite, mas que ainda assim tem fortes espinhos capazes de provocar a dor e o sofrimento. As mulheres são um conjunto de paradoxos. Não precisamos entendê-las, nos contentamos em amá-las, como mães, irmãs, amigas e mulheres. E, quem sabe, deixar que esse amor transborde, nos transformando em meninos, bobos e desamparados, mas, sobretudo, em pessoas melhores.

Obs.: Depois de todas essas considerações tenho que dedicar isso as mulheres da minha vida. Minha mãe, Cristina (a rainha da minha vida), minhas lindas irmãs, Liliane e Letícia, minhas avós, Maria e Ancila, minha finada e saudosa bisavó, Madalena (não importa onde você esteja, será sempre a minha garota!) e a todas as mulheres que passaram e passam pela minha vida. Vocês me deixam puto, às vezes. Perdidamente apaixonado em outras, mas acima de tudo me fazem muito feliz. Obrigado.


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4 respostas

5 05 2011
Dayse

Estou realmente lisonjeada! O texto ficou SEN-SA-CI-O-NAL!
Tirando sua dúvida: Eu amei o texto, e é sim o que eu queria e precisava ler.
Realmente não foi muito humilde da sua parte comparar nós mulheres, com carro, e ainda dar ênfase nessa questão de que surgiram modelos novos e os velhos foram trocados. Mas tudo tem uma intenção positiva né?!?! Afinal, nenhum cérebro trabalha contra o próprio dono. (Rs.. Brincadeira).
Nós mulheres, modificamos sim nosso comportamento, desejo, enfim…modificamos “nosso mundo” de acordo com “as fases da lua”..rs.. e é muito bom saber que existe um homem que entende, não discute, não se justifica e ainda por cima atenta os demais a fazerem o mesmo.
Ah… parabéns! Você já é uma mistura de Arnaldo Jabor e Silvio Santos. kkkk

5 05 2011
Kézia

Noossaa, o texto realmente é ótimo.
Raramente conheço um homem que entende uma mulher dá forma mais delicada que vi no texto acima.

Parabéns!!

6 05 2011
suellen

caramba, que lindo o texto, sentimentos muito bem expresso!

6 05 2011
Michely

Simplesmente encantador…

Penso que os homens deveriam ler e procurar não entender, mas sim respeitar o nosso mundo exatamente da forma que você colocou. Um mundo com muitos segundos contraditórios, intensos e quase sempre necessários! =)

Parabéns hein!

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