
Então ela saiu pela porta e foi como se o tempo pudesse parar. Fazia tempo desde a última vez. Quando toda a impotência se tornava alívio, quase uma sensação de reconforto. Ele se perguntava a todo o tempo como puderam chegar até aqui. No meio do caminho, os dois se viram abandonados pelas certezas. O futuro é um ser abstrato e sempre será difícil assistir castelos e fortunas se dissiparem como a cerração das manhãs de inverno. Planos e metas, trilhas e caminhos, em algum lugar ao menos um pouco disso deveria ter sido real. Para ele fora. Decisões foram tomadas à revelia e agora era necessário conviver com a certeza incômoda, feito o gosto de cigarro da bebedeira da noite anterior. Uma verdade estava entre eles. Embora nenhum dos dois fosse capaz de mencionar, ela estava ali gritando no silêncio, para qualquer um que quisesse ouvir.
Tem dias em que você acorda assustado e é como se tivessem mudado o chão sob os seus pés. Não mandaram sequer um telegrama. Ninguém fez qualquer menção em avisar que os sonhos não podem ser patenteados. Os sonhos são matéria imaterial e fugaz. Eles nunca pertenceram, sob certo ponto de vista, eles nem chegaram a existir de fato. E agora ela está indo embora e não há nada que se possa fazer. Ele não podia se lembrar de um só dia em que ela estivesse mais bonita. Borboletas e flores azuis sobre seu cabelo, como em um filme antigo. Esse é o momento singular em que ele se dá conta que talvez ela mesma nunca tenha existido. Criamos pessoas na medida em que projetamos nelas expectativas vãs. Esperamos que elas caibam exatamente no buraco que preenche o vazio de nossos corações. Nos apaixonamos num ato simples de licença poética. Nossos corações feito lentes grande-angulares, prontos a capturar o momento certo, a impressão perfeita. Construímos a moldura e a agora precisamos da fotografia que se encaixe. Ele passou os últimos quatro anos tentando compor o quadro perfeito, a melodia apartir do silêncio. Até que se apaixonou pelo conceito, pela ideia. Fora sempre um idealista.
“O amor é ácido lisérgico”, repetia consigo mesmo, quase feliz com a despedida. Ela encerrava um capítulo na sua vida quase no mesmo instante que ele passara a ansear pela mudança. Algo para romper com o ciclo, com o eterno retorno. A única dor ficava por conta das cartas nunca entregues, das lágrimas que não foram derramadas, dos véus e grinaldas queimando incessantemente nos porões da consciência. O único pesar era o vazio que o consumia por dentro feito um grande vácuo no universo. Ainda que esse buraco negro tenha sido de fato a única coisa que realmente o pertencera ao longo de todos esses anos. Era a última porta que se batia antes que ela fosse ao banheiro retocar a maquiagem, a perfeição que as lágrimas romperam.
Era aquele o momento mais solitário do dia. O momento perfeito para acender um cigarro. Então ele lembrou que tinha parado e se perguntou, por fim, se valia a pena. Prometeu a si mesmo aprender a viver sozinho, porque todo homem deveria viver sozinho. O egoísmo é a essência do ser humano. Em algum lugar dentro da sua cabeça, uma ideia gritava desesperadamente por salvação. Não tinha nada a ver com a outra pessoa dentro da casa. Ele era o grande egoísta, pensou ter achado a pessoa certa, mas quando olhava em seus olhos via só o que desejava. Via aquele ser que não era humano, não era matéria. Era o negativo de um sonho. O reflexo de narciso. Ele fechou os olhos e desejou que ela também o libertasse daquelas expectativas. Talvez já não pudessem mais “aceitar” um ao outro. Era necessária muita sabedoria para aceitar. Era necessário abandonar a ideia pré-fabricada, o construto, aquilo que nós egoístas chamamos de “sonho”. Não se compra o real pelo ideal, seria loucura aceitar e não querer nada em troca. Era tarde demais para sair ileso. Poderiam ao menos se libertar, voltar para casa. Mas não há salvação sem sofrimento e ela entregou-lhe o anel. Rompeu-se a inércia…era o fim.
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