Ufes aprova sistema de cotas

10 08 2007


Manifesto em favor das cotas raciais no campus da Ufes (06/04/2006). Foto enviada por Gabi Merlo, para o Centro de Mídia Independente.

Hoje a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) deu um importante passo rumo à democratização do acesso ao ensino superior no Estado. O Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou o projeto que prevê uma reserva de 40% das vagas da graduação para ex-alunos de escolas públicas. O sistema de cotas foi aprovado após mais de um ano de discussões e, ao contrário do que reivindicava o Movimento Negro do ES, não fará distinção entre brancos e negros. Os critérios para a reserva das vagas serão bem objetivos. Além de ter estudado em escolas da rede pública no mínimo durante sete anos (incluindo os três do ensino médio), o estudante deverá ter renda familiar inferior a sete salários mínimos (2.660,00 R$). A alteração será apresentada já no edital do Vest Ufes 2008, lançado ainda nesse mês.

As principais críticas ao sistema aprovado vieram, como se pode imaginar, dos cursos de pré-vestibular e do Movimento Negro, que pleiteava uma reserva de 26% dessas cotas para alunos afrodescendentes. Sou totalmente favorável ao sistema da maneira que este será aplicado na universidade. Fico contente que essa ampla discussão em que a sociedade capixaba se envolveu nos últimos tempos tenha efetivamente resultado em mudanças significativas. Apesar de todo meu respeito ao Movimento Negro, nunca acreditei que vagas puramente raciais pudessem resolver o problema da universidade e nem mesmo o problema do racismo no país.

Qual é o perfil de estudante que a Ufes precisa incluir? E por que a importância desta inclusão? Qualquer análise do sistema de cotas que não se proponha primeiramente a responder essas questões não pode ser levada a sério. Por que queremos negros, pobres, índios ou imigrantes na universidade? Simplesmente para que possamos substituir uma elite branca por outra, etnicamente diversificada. Não acho que esse seja um motivo relevante. Sempre acreditei que se as decisões em nosso país não considerarem a sociedade como um todo estaremos perdendo o foco na humanidade e agindo da mesma forma que tantos fizeram antes de nós, sem qualquer resultado relevante. Não só a Ufes, como todas as instituições públicas de graduação desse país devem perder o caracter predominantemente elitista e pequeno-burguês que sempre caracterizou o ensino superior no Brasil. Adicionar novas experiências de vida, novos perfis de estudante, sempre será muito válido para construirmos um ambiente plural e rico em interações de diferentes naturezas. Não se trata simplesmente de “enriquecer” a Ufes de seus portões para dentro, mas de levar a universidade até as comunidades que historicamente não tem acesso e trazer estas comunidades para dentro do campus. Isso é enriquecer a sociedade como um todo. Trazer o Movimento Negro, o Movimento Hip Hop, A Central Única de Favelas, todos para dentro da universidade e sobretudo estabelecer o diálogo entre eles e a universidade.

Segundo dados do Censo Escolar de 2006, 52% dos alunos de escolas públicas de ensino médio do Espírito Santo se consideram negros ou pardos. Longe de ser uma minoria, os negros e pobres são a grande maioria do povo brasileiro. Não quero me aproximar do discurso hipócrita da classe média. Aquele que diz que nossa sociedade é multi-cultural e que, portanto, seria difícil distinguir as raças no imenso e exótico caldeirão étnico brasileiro. Como se vivêssemos uma grande harmonia e ninguém visse no próximo negro ou branco, e sim brasileiro. A pobreza em nosso país tem cor. O abismo entre brancos e negros se esbarra na diferença entre os elevadores sociais e de serviço dos prédio residenciais. Por outro lado, diferenciar negros e brancos com a mesma formação escolar é uma atitude neo-nazista e não ajuda em nada a acabar com o preconceito racial. Por que os afrodescendentes precisariam de cotas personalizadas? Eles são mais da metade do corpo discente das escolas públicas de ensino médio do Estado. Cotas sociais para alunos de escola pública são uma conquista da sociedade como um todo, mas também dos negros que são grande parte – a maior parte – desse contingente.

Hoje, de acordo com o instituto Saberes, menos de 3% dos alunos da Ufes são negros. Certamente, não é algo que possamos comemorar. Mas se fossem 50%, eu ainda acharia estranho um negro precisar ser médico, advogado ou acadêmico para ser respeitado. E sobre os milhares de garis que varrem nossas ruas todos os dias, brancos ou negros, eles são menos importantes do que nossos médicos ou engenheiros, simplesmente por não ter um diploma universitário? Se nossa sociedade fosse composta 100% de cientistas sociais, alguns deles teriam que entregar cartas, plantar tomates e coisas do tipo, porque um conjunto social não sobrevive sem isso. Fico particularmente incomodado com essa história de que para ser valorizados precisamos necessariamente passar por uma universidade. Também me incomoda a mercantilização do ensino superior, que virou simplesmente um degrau para a ascensão social. Será que perdemos a noção de como a universidade pode contribuir para melhorar todo um conjunto social? Será que nos esquecemos de que, como estudantes de universidades federais, teremos um dia a obrigação de devolver para a sociedade o investimento que esta fez em nossa formação profissional? Ou é simplesmente se formar para “ser alguém” e levar uma vida confortável com um salário de graduado. Tente colocar 190 milhões de brasileiros dentro das universidades. Não é a solução. Se não mudarmos a consciência em torno do papel da universidade para as comunidades ao seu redor, qualquer política de cotas será insuficiente. De qualquer forma, parabéns à Ufes pelo primeiro passo dado. Que os próximos acadêmicos entendam a real importância da instituição que representam e que essas pessoas, acima de tudo, sejam capazes de fazer a diferença em prol da coletividade. Que as cotas sirvam realmente para restaurar um pouco da nossa esperança na universidade pública e na sua função como instrumento de transformação social coletiva.

 


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19 respostas

11 08 2007
Júlio

E a classe média, só se ferra de novo.

13 08 2007
zecasagrande

Que peninha da classe média…sempre tão abandonada!!

13 08 2007
jessica

que bom q estão implantando as cotas desse jeito… teremos muitos médicos analfabetos no futuro. viva o brasil.

14 08 2007
zecasagrande

Cara Jessica…
Fico contente com sua participação, como com a de qualquer pessoa que pense por bem comentar algo a respeito das coisas que escrevo e que acredito. Fico muito grato e ressalto que o espaço está aberto à diferentes opiniões (sem ironia nenhuma mesmo). No entanto, como discordo da sua maneira de pensar, gostaria de aproveitar para lançar mais algumas idéias em forma de réplica. Deixo claro que o espaço estará aberto para tréplicas e demais seqüências desse diálogo.

Recentemente, estive lendo um artigo de um professor de medicina (já que você falou de médicos) da Universidade Estadual de Londrina, José Eduardo de Siqueira. Gostaria de aproveitar uma passagem desse texto:

“É sobejamente conhecido que as vagas nas universidades públicas brasileiras são ocupadas por parcela não superior a 15 % da população geral e, a grande maioria desses jovens, é oriunda de escolas particulares e freqüenta cursos pré-vestibulares que cobram mensalidades muito elevadas,o que torna impossível a participação de estudantes de origem humilde nesse universo de privilegiados.

Esta dificuldade de acesso aliada à baixa qualidade de ensino da escola pública secundária do país faz com que 85% dos jovens brasileiros esteja prejudicado em usufruir da universidade, embora pública e, portanto, mantida com a contribuição de todos,inclusive de seus pais.”

Sistemas de cotas foram implantados com muito sucesso em universidades brasileiras de ponta. Só para citar algumas: Unicamp, UnB e Uenf. Esta última divulgou recentemente um balanço que comparou coeficientes de alunos cotistas e não cotistas e constatou que as médias se equivalem. Talvez, seja ingênuo pensar que um vestibular baseado no conhecimento mecânico e na memorização possa de fato selecionar as pessoas mais aptas. Se teremos “médicos analfabetos” no futuro, isso só dependerá dos professores que os aprovarem e do tipo de ensino oferecido pela instituição.

O Brasil sofre sim de uma doença crônica: A inoperância de suas instituições que, na maioria das vezes, são governadas por uma classe média que tem muito a perder com políticas afirmativas de inclusão social. Discutimos demais, falamos demais, mas o que de fato tem sido feito para mudar a realidade?

Enfim, não vamos transformar esse comentário num novo post. Mais uma vez obrigado por sua participação e, caso você se interesse por ler na íntegra o texto do acadêmico da UEL, segue o link:

http://www.uel.br/com/noticiadigital/index.php?arq=ARQ_art&FWS_Ano_Edicao=1&FWS_N_Edicao=1&FWS_Cod_Categoria=1&FWS_N_Texto=3395

14 08 2007
Júlio

Vá dizer que você não acha que a classe média só se ferra? Nós que sustentamos essa desgraça de país e é assim que você acha que ela deve ser tratada?

14 08 2007
angelica

Que comentário mais desestruturado hein, Jéssica!!
Porque médicos analfabetos?Não entendi?
Fuga total ao tema!!
Ora, a possibilidade de existir um médico incompetente cujo ”veio” de escola pública é mesma de quem desfrutou do ensino privado.Talvez a classe pobre seja capaz de formar profissionais melhores do quê a classe alta afinal desde cedo aprendem a correr atrás do prejuízo, enquanto que…

14 08 2007
zecasagrande

Respondendo as perguntas do colega Júlio:

“Vá dizer que você não acha que a classe média só se ferra?”
R: Não, eu não acho. Mais do que simplesmente “achar” ou não, uma simples pesquisa a respeito de alguns momentos históricos “dessa desgraça de país” podem comprovar o quanto você está errado. Sugiro que você comece procurando algo sobre a “Reforma Sanitarista” de Rodrigues Alves na cidade do Rio de Janeiro, em 1904. Só para adiantar alguma coisa, o presidente da época promoveu uma reurbanização na capital, afastando os cortiços do centro e criando bolsões de pobreza na periferia (o que hoje agente conhece como favela). Depois você pode dar uma olhada no período do regime militar (aquela história de fazer crescer o bolo para somente depois dividir, lembra?) e no fim agente pode falar do Plano Real.

“Nós que sustentamos essa desgraça de país e é assim que você acha que ela (a classe média) deve ser tratada?”
R: Não tenho nada contra a classe média e não me sinto muito bem em falar sobre isso, até porque eu também integro esse montante. Mas enfim. já que você perguntou…Um dos grandes problemas da classe média é a forma como ela se superestima. “Nós sustentamos esse país”, cá entre nós, uma frase extremamente infeliz. Nós talvez sustentemos nossas casas e filhos, para que eles cresçam saudáveis e possam dizer tantas asneiras. O país é sustentado pelo trabalho e pelo suor de 190 milhões de brasileiros (excluindo, é claro, alguns políticos e demais bandidos por aí). A carga tributária recai sobre todos os cidadãos, independente de seu padrão de vida. A questão de cotas não uma forma de “tratar” a classe média, é uma medida de inclusão social que poderá ser proveitosa não só para as classes menos abastadas quanto para toda a sociedade (como? eu expliquei no texto do post. leia com um pouco mais de atenção, caso tenha alguma dúvida). A classe média e alta tem representado 97% dos estudantes da Ufes e nós fracassamos na tentativa de tornar aquele um espaço adequado ao nome que leva. Agora não podemos dividir as vagas? Como se a Ufes fosse propriedade exclusiva dos mais abastados.

Gostaria de salientar que não sou contra qualquer manifestação contra o sistema de cotas. Acho que isso é completamente aceitável – e até importante – dentro o processo democrático. Como também vivo num regime democrático, acho por bem manifestar meu apoio à causa, e é só. Não quero convencer ninguém. Lutem por seus direitos, inclusive o de monopolizar os bens públicos, azar o nosso!

14 08 2007
zecasagrande

Uma piadinha para descontrair o debate que está muito acalorado…
Isso aconteceu de verdade e quem me contou foi um amigo, professor e responsável pelo Laboratório de Vídeo do curso de Comunicação Social.

“Estavam dois sujeitos – bem populares, digamos – no ônibus passando pela av. Fernando Ferrari. Quando chegaram em frente à Ufes, um deles perguntou ao outro:
- O que é isso aí que sai tanta gente todos os dias?
- É a Ufes rapaz… – o colega respondeu com aquele jeito de quem também não sabe bem do que está falando.
- E o que tanto se faz aí dentro?
- Num sei. Só sei que é um lugar onde fica um monte de filhinho de papai metido a besta…mas o que eles fazem lá eu não sei.”

Eles também não sabem que estão pagando por aquilo alí….hauhauhauhauhau
Não achou engraçado? Pois é…

15 08 2007
Logan

As pessoas que entrarem pelo sistemas de cotas
e se formarem
terá a mesma formação das pessoas
que não foram beneficiadas por tal!

a jessica foi infeliz em dizer tal argumento

a formação para os “cotistas” e os “não-costistas”
será absolutamente a mesma.
Isso implica na igualdade de aprendizado,
igualdade na formação,
e igual execução no trabalho.

sem mais

15 08 2007
josé

Afirmo que essa atitude da classe média e alta
é uma atitude hipócrita,
quando se eles fossem beneficiados não
haveria nenhum manifesto com relação a tal.

16 08 2007
Rafael*

Acho que todos deveriam ter a chance de ter um futuro melhor, ou seja, se formando em uma universidade federal.
Mas também acho que o governo ao invés de fazer essas cotas, deveria investir mais na redede educação (com seus altos lucros de impostos). Então desta forma poderiamos ter mais igualdade entre as pessoas que iriam competir vagas no vestibular. Sem diferenças, sem preconceito, sem cotas.

Cotas=100% !

16 08 2007
zecasagrande

Pow concordo 100% com você, Rafael! Não podemos deixar de cobrar que o governo melhore as condições do ensino público no país. Não podemos deixar de cobrar, sobretudo, que a união reduza seus gastos internos, dê mais agilidade à maquina e consiga investir o grande montante que pagamos de impostos. As cotas são um paliativo. Até porque se formos esperar uma total revolução no ensino público fundamental e médio…não será assim do dia para a noite. Rafael, espero muito que no futuro não precisemos mais de cotas. Elas não são a solução, mas são um passo importante para garantir a igualdade de oportunidades de ingresso nas universidades federais.

19 08 2007
Tallys

E quem sabe que com essa solução nós não consigamos um pequeno avanço… Agora sim uma classe que está prejudicada (classe média) tem recursos e motivos o suficiente para cobrar do governo uma solução que não seja paleativa… Digo, uma hora a classe média vai ter que enxergar que o problema não são as cotas, mas sim a falta de oportunidades… as cotas são uma consequência…
É hora de bater o pé e não arredar desse ganho que foram as cotas…

20 08 2007
jecilaine marques

Como vemos no requerido ascima a questão oposta as cotas devem ser requeridas às condições requeridas por alunos de classe média.Eles não se preocupam com a vida social dos demais alheios de escolas públicas, mas sim em se privarem meio que de modo egoísta de pessoas com uma renda percapta inferior as suas.Em que país vivemos que nossos alunos precisam brigar por uma “vaguinha” na alta sociedade super valorizada por uma porsentagem minoritária?
Devemos dizer basta e EXIGIR dos governates de nosso país por uma vida socioeconômica justa onde seus respectivos direitos possam ser democráticos.

30 08 2007
João

ah, e o povo mais humilde, pobre
q chegam a passar fome…
pra poder pagar uma escola particular
sonhando com um futuro melhor
só c fodem tambem ne
¬¬’

30 08 2007
João

ah, mais uma opniao
pq esses estudantes nao cobram do governo
para q melhorem o ensino publico
ao envez d cotas?! ^^

27 11 2007
“Aproveitando o assunto” « A juventude de Cariacica está aqui

[...] a necessidade de cotas para negros na Universidade Federal do Espírito Santo? Será que apenas as cotas sociais, que a Ufes adotou, conseguirá suprir esse déficit do segmento negro na [...]

5 01 2008
lucas fulgoni

bem!esse tema da o que fala, sempre vai ficar nesse empasse,enquantos vocês não se reunirem para arrumar uma solução,invés de ficarem nessa disputas,quem merece mais que quem!
Pensem como gente, não como animais irrácionais,aliás eles não pensam!
boa sorte pra vocês!
que Deus guie os passos de vocês!
valeuuuuu!
fuiiiiiiiiiiiiii!

10 03 2008
jackson escola agrotecnica federal de santa teresa

meu povo eu ainda não sou universitario mais sou apenas um estudante do ensino medio que sonha em entrar na universidade…….gente analisa comigo o que é a cota, eu sou negro e eu me acho inteligente capaz de entrar em uma universidade com os meus esforsos agora se ter cota para negros que vai dar uma vantagem de 40 a 50% de chance isso não vai dizer que o negro é tão inferior que precisa de uma cota qualquer para se ingresar na universidade, minha gente devemos lutar pela igualdade sim.. mas sem se esqueser que ela é pra todos tanto pros negros como pros brancos etc…-

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